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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

PASTOR DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA CLASSE

Uma infeliz verdade que acompanha o evangelho há cerca de dois mil anos é a existência de duas categorias de pastores, os de primeira e os de segunda classe. Os de primeira classe arrogam para si a exclusividade da Revelação Divina, como quem, apropria-se, da Palavra e a toma como sua, “Eis que eu te digo”.  Outra característica dos pastores de primeira classe é a sua mensagem sempre profética, calcada no exclusivismo e sempre carregada de alta densidade espiritual, ou seja, quando ele fala, Deus está falando. Quase sempre procuram fazer, sua ênfase é no fazer, e fazem todo tipo de obras pelas quais podem ser vistos pelos homens, amando os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas igrejas. Ficam felizes em serem saudados nas praças, terem lugar de destaque e serem adorados pelos homens, quiçá, serem chamados, Rabi.  Parece-me que já vi este enredo escrito em algum lugar, como um filme que se repete.
Na maioria das vezes, não são os pastores que se intitulam de “primeira classe”, mas a igreja que unge o seu líder mediante uma série de qualidades, adorando mais a criatura do que o Criador. Interessante notar que a palavra “Cristo”, é um termo usado em português para traduzir a palavra grega “Khristós”, que significa “Ungido”. O termo grego, por sua vez, é uma tradução do termo hebraico “Mashiach” que significa messias, ou o “rei prometido de Deus”. Logo, atestar os pastores de primeira classe como “ungidos de Deus” é um contra senso, pois, ungido mesmo, ou ungidasso ou ungidão (nem existem estes termos), na sua maior expressão de grandeza, somente Jesus Cristo de Nazaré, o Filho de Deus. O desalinho é comum por se confundir “ungido” com o significado de messias, com “ungido”, como aquele que recebeu a unção que é a consequência direta do ato de ungir. No Antigo Testamento era comum derramar azeite (um símbolo visível) sobre a cabeça de uma pessoa com o objetivo de consagrá-la, santificá-la para um serviço especial. Isso era ungir a pessoa. Consequentemente, se a pessoa fosse fiel a Deus, seria e permaneceria cheia da unção do Senhor, seria um ungido. Profetas, reis e sacerdotes eram as pessoas mais comumente ungidas, pois tinham serviços especiais a realizar diante de Deus e da nação. Assim a unção tinha o objetivo de separar o ungido para um propósito em particular, a serviço de Deus. Os pastores de primeira classe, são então levados a acreditar que as suas unções, são mais um título do que uma consagração.
Mas a pior característica do pastor de primeira classe, na minha opinião, é a sua autojustificação, aquilo que o Apóstolo Paulo tinha horror que e chamava “vanglória”, um sentimento de orgulho que certos religiosos de primeira classe nutrem por sua situação privilegiada, de orgulho no mérito próprio, no egocentrismo não redimido, calcado na sua justiça e na sua lei. Em outras palavras, como diria John Stott, “o direito de gloriar-se, de que o próprio Paulo abriu mão e que condenava, que era uma justiça própria composta ao mesmo tempo por “justiça advinda do status” e “justiça proveniente de obras””.
Nesse contexto é que Jesus conta a história de dois homens que: “Dois homens subiram ao templo para orar, um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, em pé, orava no íntimo: Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, corrupto, adúlteros, nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Mas o publicano, ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito dizia: Deus tem misericórdia de mim, que sou pecador. Eu lhes digo, que este homem, e não outro foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta, será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. (Evangelho de Lucas, capítulo 18, versículos de 10 a 14)

Já os pastores de segunda classe, sofrem porque se esforçam em obedecer a Palavra de Deus e os ensinamentos de Jesus Cristo. “Aprendei de mim, que sou manso e humilde”. Nesse contexto as críticas são voltadas porque não impõem sua opinião, não fazem valer o seu título de pastor, não se importam com os primeiros lugares ou não aparecem nos grandes eventos. Sua presença é quase imperceptível, não ocupa posições de destaque e suas palavras são sempre brandas demais, sua posição não fica marcada e sua imagem não agrada muito a igreja.  Sua posição humilde, muitas vezes é confundida com a subserviência, a qualidade ou estado de quem é subserviente, cujo significado, está mais para a ação de bajular ou de servir aos desejos de outrem por vontade própria.
Os pastores de segunda classe não servem de modelo para a igreja, são muito comuns, simples demais. A igreja precisa de modelos de sucesso, modelos que tragam cada vez mais pessoas dispostas a serem o espelho de seu pastor, discípulos cada vez mais parecidos com o seu líder e sua causa. O marketing todo é influenciado pela imagem que a liderança e sua igreja passam, imagem é tudo. Desenvolver uma imagem positiva é muito importante para a igreja de sucesso. O marketing pessoal dos pastores de segunda classe é simplesmente um fracasso porque não desenvolvem as suas habilidades ou qualificações em benefício da sua carreira. Todo pastor de sucesso e todo pastor profissional (principalmente os de primeira classe) criam uma marca pessoal em seu ministério, porque é importante agregar valores positivos a igreja, trazendo assim benefícios para ambas as partes. Se o profeta João Batista vivesse em nossos dias, muito provavelmente seria conduzido a um obscuro ministério, para que não aparecesse em público ou de púlpito. Sua máxima: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua”, seria enterrada no esquecimento porque não condiz com as necessidades e o marketing da igreja. Os pastores de sucesso criticam muito a idolatria e os ídolos modernos, mas roubam-lhes os templos. Realmente. Os pastores de segunda classe são parecidos demais com Jesus Cristo, talvez por isso, não tem lugar, voz e vez na igreja evangélica brasileira.

Pastor Ricardo L. Gondim, 
Paulista, 47 anos, casado com Marcia Gondim, pai de Gustavo, Erik, Giovanna e Gabriela Gondim. Graduado em Análise de Sistemas pela Faculdade Hebraica-Brasileira Renascença, Bacharel em Teologia pela Faculdade Kuryos e Pós-Graduando em Docência Universitária pela Faculdade Católica de Anápolis. Professor no Curso de Teologia do INTEPEC – Instituto Tecnológico Profissionalizante da Educação e Consultoria, que atua em convênio com a Faculdade Evangélica de Brasília e a Faculdade Kuryos, também, ministra palestras e aulas em igrejas.

Fonte: Artigos Gospel

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