Um
grupo de passageiros da AM Tour, de São José do Rio Preto, no interior
paulista, se dizem lesados pela agência, de quem compraram uma viagem para
Egito, Israel, Grécia e Turquia com saída no mês de Julho passado. A viagem
que, em teoria, custaria cerca de oito mil reais, teria duração de 16 dias e
incluía 14 noites em hotéis café da manha e jantar, entradas nos pontos
turísticos conforme itinerário. As únicas coisas descritas no roteiro como não
inclusas eram gorjetas durante a viagem, que a empresa sugestionava a nove
dólares por dia, seguro médico, almoços e bebidas e taxas de aeroportos,
fronteiras e vistos, incluindo visto de entrada no Egito no valor de 20
dólares, que posteriormente foi alterado pela empresa para 35 dólares.
A
agência realiza viagens de peregrinação para a Terra Santa e tem como
proprietário conhecido André Milian, bispo de uma igreja evangélica da cidade.
O proprietário trabalha na agência e tinha contato constante com os clientes,
porém alguns dos prejudicados dizem que a empresa não está em nome dele. As
viagens de peregrinação para os são muito mais que turismo comum, trata-se de
uma realização espiritual. Geralmente, essas viagens são programas por muito
tempo e as pessoas se privam de algumas necessidades para conhecer os caminhos
de Jesus. Essas pessoas tiveram o sonho frustrado por essa agência e ainda se
decepcionaram muito com as atitudes do proprietário, que é um religioso.
Inicialmente,
o valor pago pela viagem era realmente tentador. Em nenhuma outra agência é
possível encontrar um pacote como esse, com tantos países e com uma longa
duração, por um preço tão baixo. Era durante a viagem que apareceriam as
surpresas. A cliente que denunciou a empresa, Bianca Tanaka Petréka, afirma que
a desconfiança começou ainda nos preparativos da viagem. “Compramos dólares do
proprietário com valor estipulado na data. No entanto, nos foi pago muitas
semanas depois um valor muito abaixo do que se foi comprado, com a desculpa de
que ele havia pagado taxas pelo dinheiro”.
Na
partida, ainda no aeroporto, Bianca disse que todos os passageiros foram
obrigados a pagar os valores de gorjetas por todos os dias da viagem com um
valor superior ao sugerido no roteiro. Cada passageiro deveria entregar naquele
momento 120 Euros e mais 90 dólares – aproximadamente 740 reais. A denunciante
conta ainda que no momento da entrada no Egito, pagaram ao proprietário da
empresa o valor pedido do visto, de 35 dólares, mas ao verificarem com o
serviço de informações do aeroporto constataram que o visto custava apenas 25
dólares. Bianca disse também que cerca de um mês antes da viagem foi cobrada
uma taxa de 220 reais pela troca de hotel no Egito, pois, segundo os
organizadores da viagem, o hotel oferecido anteriormente não era seguro.
Chegando ao Egito os passageiros perceberam que o hotel em que estavam se
hospedando era o mesmo inicial, ou seja, não houve nenhuma troca. Outro
problema no Egito foi a visita à cidade Sharm El Sheikh, prevista no roteiro
passado aos clientes e não foi realizada.
O
ponto alto da decepção dos passageiros aconteceu em Israel. Segundo Bianca e
Vanessa Venturim, outra passageira presente, o grupo foi barrado durante o tour
por Jerusalém pela operadora receptiva que prestou serviços à AM Tour, pois
conforme disseram, o pagamento do hotel naquela cidade não havia sido feito e o
grupo seria impedido de se hospedar aquela noite. O representante da agência
afirmou ao grupo que a transferência havia sido feita e, apesar dele ter
enviado o pagamento, o Banco Central não completou a transferência, ou seja,
justificou como sendo um problema do Banco Central, que não erra neste tipo de
transação devido à regulamentação da operação, então pediu mais 350 dólares por
turista para que pudessem pagar o hotel, prometendo que o dinheiro seria
devolvido no dia seguinte. Bianca e outros passageiros se recusaram a pagar,
pois os valores devidos por hospedagem já teriam sido pagos no pacote.
Em
meio ao impasse, os representantes pediram dinheiro e cartões de crédito a
outros clientes, entre eles Vanessa, que desembolsou 2200 euros. Chegando ao
hotel, depois de mais de duas horas na rua resolvendo o problema, os
passageiros conseguiram se hospedar após o horário do jantar no hotel e, exaustos,
foram dormir sem comer. Outros passageiros que deram dinheiro para não ficarem
na rua acabaram sem dinheiro até mesmo para alimentação nos dias seguintes,
pois nada lhes foi ressarcido. Vanessa, que é vizinha do proprietário da
empresa na cidade de São José do Rio Preto, conta que até hoje está em busca de
ter seu dinheiro devolvido. “Não atende telefone, não responde mensagem e não
aparece na empresa pra trabalhar. Sou vizinha de porta dele, e não o vejo desde
a viagem”.
Chegando
à Grécia, os problemas não terminaram. De acordo com o que disse a passageira
Isabella Venturim, taxas inexistentes foram cobradas pelo dono da empresa. A
passageira Bianca contou que o proprietário André solicitou de cada um uma taxa
de embarque de 25 dólares para um cruzeiro pelas Ilhas Gregas que já havia sido
pago anteriormente. Alguns pagaram o valor no desembarque, conforme combinado,
mas os que haviam emprestado dinheiro para o hotel em Israel não puderam pagar
e foram coagidos por André depois. “Foi-nos ameaçado que: ‘Quem não pagou a
taxa de $25 dólares no dia da entrada no Cruzeiro, vai ter que se ver com o
dono. Agora não é problema mais meu’. Curiosamente, não vimos esse dono em
momento algum. E nem nos foi explicado a necessidade da taxa”, disse Bianca.
Segundo
Pedro Tambori, que estava entre os passageiros que começaram a reclamar sobre
os problemas da viagem, o proprietário da empresa usou da religião e da Palavra
de Deus para criticá-los “Pior de tudo, é que ele ainda usava Deus para criar
vantagem sobre a história, falava que tudo aquilo estava acontecendo era porque
muita gente estaria “murmurando” contra ele, que Deus não se agrada de quem
“murmura” e etc.” Pedro viajou com os pais, que também emprestaram dinheiro
para pagar o hotel em Jerusalém e não receberam até hoje. A passageira Delma
Batista afirma que, na mesma situação sobre o hotel, emprestou 524 dólares para
o pagamento e até agora só recebeu mil reais. Disse ainda ter se sentido
desamparada durante toda a viagem, principalmente quando, segundo ela, uma família
se perdeu no aeroporto em Roma e o dono da empresa queria deixa-los para trás,
afirmando não ter responsabilidade sobre pessoas perdidas.
Delma
também se sentiu lesada quando, chegaram ao aeroporto da Grécia por volta das
21 horas e descobriu que não havia sido feito reserva em hotel naquele país e
que teriam que esperar até às 10 horas do dia seguinte para embarcarem no
cruzeiro. “Pensa você chegando a um aeroporto, com crianças e idosos e passando
12 horas lá dentro? Ele resolveu arrumar um hotel, e tivemos que pagar mais 37
dólares a diária.” Saindo do hotel pela manhã para embarque no cruzeiro, não
havia transporte até o porto e o grupo de 94 pessoas saiu, incluindo crianças e
idosos, em plena segunda-feira na metrópole de Atenas, caminhando em meio ao
trânsito e a multidão da cidade até chegar ao local do embarque.
Os
clientes citados são apenas alguns dos descontentes com a empresa e a maioria
deles já acionou advogados para entrarem com processo contra a empresa. O que
eles querem é serem ressarcidos dos danos morais e materiais e que a empresa
não faça o mesmo com futuros clientes. Alguns desses clientes, como Pedro
Tambori, foi bloqueado em uma rede social de André Milian, sendo assim impedido
de ter contato com o mesmo ou postar alguma reclamação. Muitos dos clientes
dessa viagem cultivaram o sonho de conhecer a Terra Santa e foram frustrados
pelas ações da empresa, que os desamparou de todas as formas possíveis,
principalmente com as taxas extras que foram forçados a pagar para não terem
que sair do grupo sem nenhum aviso prévio. Alguns pensavam até mesmo em voltar
em uma nova viagem, mas ficaram desiludidos e desistiram.
Golpes
em Turismo Religioso
Outros
golpes praticados por operadoras de turismo em viagens com fins religiosos já
ficaram conhecidos antes, como o recente caso de uma operadora de Curitiba
(PR), onde o proprietário também começou a cobrar taxas extras de seus
passageiros e no fim das contas a viagem foi cancelada e os clientes ficarão
sem explicação nenhuma e no prejuízo. (Matéria do G1 sobre o caso –
http://goo.gl/C69HTX). Neste outro caso –
http://odia.ig.com.br/portal/rio/dono-de-ag%C3%AAncia-de-viagens-em-niter%C3%B3i-%C3%A9-denunciado-ap%C3%B3s-golpe-de-r-500-mil-1.413754
– , um pouco mais antigo, o responsável por uma agência no Rio de Janeiro (RJ)
vendia um pacote inexistente de uma viagem de 24 dias pela Grécia, Egito,
Israel e Turquia, com conexão em Paris. O custo médio para cada pessoa era de
U$ 3672,00, valor muito inferior ao praticado pelo mercado quando se trata de uma
viagem longa por esses locais.
Antes
de fazer uma viagem, principalmente religiosa, é importante verificar os
antecedentes do fornecedor, pois muitos usam da fé desse público para aplicarem
esses golpes. Boas fontes de pesquisa quando desejar realizar uma peregrinação
são clientes que viajaram anteriormente, porém ainda assim são necessários
cuidados, pois como aconteceu no caso da A.M. Tour em São José do Rio Preto,
que bloqueou esses clientes insatisfeitos nas redes sociais, muitas outras
podem fazer o mesmo para não terem sua imagem manchada com a verdade. Além
disso, todo agente de viagem autorizado deve ter um cadastro no Ministério do
Turismo que pode ser conferido por qualquer pessoa no site
www.cadastur.turismo.gov.br
Fonte:
Pletz